Perder dormindo, ou quando o Brasil parou de se querer
O Brasil não perdeu para a Noruega: perdeu para si mesmo. Sobre uma seleção anestesiada, um carrasco viking e o último brasileiro que ainda quis a bola.
No começo desta Copa, escrevi que o nosso amarelo já estava desquarado antes mesmo de a bola rolar. Depois da arfada de esperança contra Escócia e Japão, cheguei a temer que tivesse me precipitado e minhas palavras envelhecessem mal. Afinal, eu havia anunciado uma morte sem que houvesse cadáver. Pois no último domingo, contra a Noruega, o cadáver apareceu.
Dois a um. Trinta e quatro por cento de posse. Número esconde muito mistério, mas às vezes, também esconde o óbvio que a gente não quer enxergar. E o óbvio aqui é claro. A seleção que ensinou o planeta a tratar a bola com carinho terminou a Copa sem sequer tocar na bola. Pior: não porque a perdeu, mas porque não a quis. Isso mesmo, o Brasil não quis a bola.
Dizem que o futebol é a mais importante das coisas sem importância. Para mim, sempre foi o contrário. O futebol é uma das poucas coisas importantes de verdade que me restaram. Assistir a um jogo é voltar para a infância. É voltar para casa. É sentir de novo um amor puro e terno que não encontro em outro lugar senão dentro das quatro linhas. Talvez seja porque assisti a todos os jogos de Copa com o meu avô, enquanto ele viveu. Quase todos. Houve um só que não vi ao lado dele: a final de 2002, que assisti na casa da minha esposa – à época, colega de escola que eu, já apaixonado, cortejava. Meu avô, certamente, me perdoou. Sempre que vejo futebol, lembro dele, a quem chamava “papai”.
E, neste domingo, a seleção me lembrou o que aconteceu com papai. Internado, nos últimos dias antes de partir, ele teve uma melhora repentina. Logo depois se foi, e em nós ficou aquela frustração funda – “poxa, mas ele tinha melhorado e já se falava em alta”. Isso não aconteceu só com ele. Acontece com tanta gente que até tem nome: lucidez terminal, ou, na boca do povo, a melhora da morte. O doente já sem salvação que de repente reage, sorri, conversa, só para se despedir em seguida. A natureza sendo cruel e compassiva ao mesmo tempo, pois esse último brilho, de algum jeito, ajuda no luto.
Melhora da morte foi o que foram os jogos contra Escócia e Japão. Contra os escoceses, sobretudo, por pouco mais de meia hora a bola pareceu recuperar o sotaque brasileiro: tabela, drible, aquele gosto antigo de fazer o desnecessário, de ver beleza no enfeite. Foi bonito, mas também foi cruel. A beleza ali vinha da lembrança de como jogávamos. Mas lembrança, ainda mais no meio de um jogo, pode ser sinal de velório, já que se lembra do que já não existe. Contra o Japão, na bacia das almas, veio o pior dos analgésicos, o que mata a dor sem tocar na doença. Repetimos que estava tudo bem, que era só entrosar, que todos os grandes times estavam sofrendo, que o Japão era osso duro. Não era. Era negação. Só adiávamos o acerto de contas. Procrastinávamos o nosso sofrer.
Aí veio a Noruega, e a conta venceu. Não perdemos para a genialidade de ninguém. Haaland é um tanque, não um gênio, e passou o jogo todo quase sem tocar na bola. Perdemos entorpecidos, anestesiados. Perdemos dormindo. Onze homens dentro de um sistema, cada um no seu quadrado, cumprindo tarefa, entregando o combinado no prazo, mas sem um grama de vontade genuína. E aqui me falta a palavra certa. A mais próxima que o dicionário me dá é apático, e não serve. Apático é quem já traz a apatia consigo de nascença. Não era o caso. Os nossos jogadores foram “apatizados”. Alguém, alguma coisa, algum método, fez aquilo com eles. O olhar deles não era de quem jogava, mas de quem batia ponto. A seleção que já foi febre virou repartição. A alegria virou burocracia. Perdemos.
E a semana inteira irão repetir o que faltou. Faltou entrosamento, físico, método, tática, frieza, faltou ser mais europeu. Mentira cômoda, e o exato oposto da verdade. Não faltou nada disso. Sobrou. Sobrou método, e o método foi a anestesia. Sobrou obediência. Sobrou aquela vontade mansa de fazer o que todo mundo faz, afinal, perder no meio da manada, dói menos do que arriscar sozinho e errar. Ninguém quer se ferrar sozinho, já diz o dito popular. O nosso drama nunca foi não saber copiar. Foi querer copiar. Querer copiar o outro significa confessar, baixinho, que já não se sabe mais quem se é. Que já não se quer ser quem se é.
Está aí o buraco de verdade em que se encontra o futebol brasileiro, e ele é bem mais fundo do que qualquer esquema tático. Um time que entrega mais da metade da bola ao adversário é um time que não quer nem a bola. Um povo que passa mais de uma década pedindo licença para ser como é, pedindo desculpa por driblar, por comemorar dançando, e que ainda se emociona, agradecido, quando alguém vem de fora lhe ensinar o que ele mesmo inventou, esse povo trocou a régua própria pela régua dos outros. Esse povo somos nós.
Isso não começa na seleção. Desde a base viramos fábrica para o futebol europeu. Formamos nossos jogadores não segundo o que somos, mas segundo o que o mercado europeu deseja comprar. Dois meninos, um criativo e calmo, com valências de camisa 10, outro rápido, habilidoso e improvisador, centroavante típico, ambos disputam a vaga para saber quem melhor se encaixa como ponta e ser vendido logo cedo. Ponta é o que a Europa compra.
Reparem, então, nas duas respostas-prontas para isso tudo e em como elas próprias esmagam a nossa identidade. A primeira é dizer que a culpa é da Europa, que nos seduziu e padronizou até esquecermos o que era nosso. Essa saída é falsa. Botar a culpa em quem nos convenceu é a última das covardias, pois entregamos ao outro autoria até da nossa própria derrota. Nessa forma de se ver as coisas, não somos capazes nem de vencer nem de perder. Ninguém nos obrigou a nada, afinal. Fomos nós que escolhemos aceitar. A segunda resposta, já à venda para 2030, é a receita de sempre: mais método, mais físico, mais frieza, mais Europa, como se a cura para o excesso de anestesia fosse aumentar a dose. Já tem gente pedindo a cabeça de Ancelotti para trazer Guardiola, o próprio santo padroeiro do método. Com ele, talvez a gente volte a vencer. Mas nunca mais seremos Brasil. As duas respostas partem do mesmo ponto, o do rebanho que prefere qualquer certeza emprestada ao risco de buscar uma verdade própria genuína. Preferir imitar o outro a buscar a própria identidade.
O pior dessa eliminação para a Noruega é que o nosso carrasco foi tão preciso que chega a ofender. Haaland não driblou ninguém, não pediu licença, não se desculpou, não enfeitou. Quase não tocou na bola o jogo inteiro, e fez dois gols – um de cabeça, subindo mais que a nossa zaga; outro rasteiro, de quina da área, soltando um torpedo com todo o espaço do mundo. Como um viking, pegou a força que tem e cravou em nós sem nenhum ornamento nem culpa, sem se desculpar por ser o que é. Haaland não está nem aí para o que irão achar do jeito dele marcar. Muito brasileiro já o chama de craque. E é justamente aí que mais dói. Fomos executados pela versão perfeita daquilo que sonhamos virar. Por um homem que abraça a própria identidade, que quer a própria potência na mesma medida em que nós desaprendemos a querer a nossa. O espelho não podia ser mais duro para nós, pois perdemos para o nosso sonho importado, encarnado em alguém que, ao menos, ainda acredita nele. Que rude contraste: alguém que não tem vergonha, no campo, de abraçar o viking que há dentro de si diante daqueles que têm vergonha de dançar e se divertir.
Para sair de um poço desses, é preciso voltar a se saber potente. Precisamos parar de querer ser europeu e passar a se querer inteiro. Voltar a ver beleza na imprevisibilidade, a achar bonito dançar. Ninguém vira essa chave por decreto, muito menos por decreto de um cronista que ninguém lê. Então fico com uma imagem, e é dela que me recuso a sair. No meio dos onze anestesiados, dos olhos que batiam ponto, da covardia travestida de obediência, insisto em procurar se sobrava um. Um só. Alguém que ainda não tivesse sido apatizado, ao menos não de todo. E sobrava.
Entrou aos vinte e dois do segundo tempo, quando o jogo já era um Brasil preso entre dois mundos, sem saber qual deles era seu. Pediu a bola. Não recebeu. Continuou pedindo. Pediu a bola o tempo todo. E essa, talvez, seja a marca do último dos nossos. No fim, cobrou o pênalti do gol de honra, o nono dele em Copas, e, em vez de correr de volta para o meio como manda a cartilha do bom moço, foi provocar o goleiro. Mostrou as cinco estrelas. Ainda deu uma entrada dura, levou amarelo, bateu boca com os noruegueses. A imprensa o crucificou nos dias seguintes: patético, vergonhoso, egoísta, mimado.
E eu fico me perguntando se não é justamente essa petulância, esse riso fora de hora, essa recusa de baixar a cabeça mesmo eliminado, o último sinal de vida de um futebol que a gente teima em querer morto. Só que seria desonesto fazer dele apenas mártir. Neymar é também vilão. Símbolo de uma geração mimada que não ouve crítica, que não se entrega, que troca o suor por prazeres vazios e atravessa a própria grandeza dando de ombros, blasé diante do que devia ser sagrado.
O herói e o algoz moram no mesmo corpo cansado de Neymar. Peter Pan de trinta e quatro anos, cercado de mediocridade, nascido na geração errada – e, ao mesmo tempo, desperdício da própria dádiva. O único que ainda carregava aquilo que um dia demos ao mundo, e que talvez não tenha sabido carregar direito.
Se sobrava ele, com toda essa contradição, então o amarelo não desquarou coisa nenhuma. Fomos nós que paramos de querer que ele tivesse cor. E essa culpa também é nossa. Não sabemos apreciar a ambivalência do nosso próprio craque, que no fundo é a nossa própria. Por isso, a última conversa dessa tríade de crônicas sobre a Copa será sobre ele. Sobre esse homem-menino que, apesar de tudo, ainda quis. Será sobre Neymar.



