O triângulo com bordas vermelhas e um ponto de exclamação no meio é um ícone universal de alerta. Nas estradas da vida, digo as rodovias mesmo, o triângulo é montado alguns metros atrás do carro, quando este “fica no prego”. Serve para que um estouvado qualquer não bata nos já desafortunados viajantes cujo veículo enguiçou.
Num slide de powerpoint, que não era aquele famoso do Deltan, mas que também diz respeito ao PT, vê-se um triângulo ornando a tela, armado diante da opinião alheia e ladeado por letras maiúsculas e uma advertência de perigo: “Visão liberal”. Na explicação posterior, expõe-se que, para o morador da periferia, a crise ética da sociedade não é um problema estrutural, mas de ordem individual, e se resolverá pela educação no âmbito da família.
O famigerado slide é do relatório Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo, da Fundação Perseu Abramo, o centro de estudos que o PT criou em 1996 e batizou com o nome de um de seus fundadores, jornalista e professor.
Quem tinha enguiçado e ficou no “prego eleitoral”, diga-se, foi o próprio partido, nas eleições municipais de 2016. A fundação foi a campo saber o porquê e ouviu quem votara no PT de 2000 a 2012 e depois o abandonara, nas urnas de Dilma, em 2014, e de Haddad, em 2016. Foram sessenta e três entrevistas em profundidade e cinco grupos focais. O relatório é de 2017. Nesta semana, um fio de Rodrigo da Silva (@rodrigodasilva) no X tirou-o da gaveta, e ele circula como se fosse de ontem.
O que se ouviu naquelas entrevistas e o que o PT fez (ou não fez) com isso depois explica grande parte da malquerença universal que hoje recai sobre o partido que, a cada dia que passa, é “dos trabalhadores” só no nome. Isso porque, no imaginário daquela gente entrevistada, daqueles trabalhadores que formam o que deveria ser a base política do PT, registraram os próprios pesquisadores, "não há luta de classes". Patrão e empregado são diferentes, mas estão no "mesmo barco". O inimigo é outro: o Estado, que cobra imposto e não devolve serviço de qualidade.
Ninguém quer ser tratado como "os pobres", a "massa amorfa" dos discursos. Todos organizam a sua própria vida com a motivação de "serem alguém". Lula entra na galeria dos vencedores ao lado de Silvio Santos e João Doria, admirado, muitas vezes, mais pela trajetória do que pelas políticas. Políticas, de resto, que aquela gente aprova. Bolsa Família, Prouni e Fies aparecem valorizados. Aprovam o programa, mas recusam o sermão.
Mais revelador, no entanto, é o que não se ouviu. As "categorias analíticas" da militância e da academia, anota o relatório, não fazem sentido para os entrevistados. "Reaça" e "coxinha", os termos da moda naquela época, não habitam o imaginário daquelas pessoas. Um entrevistado, inclusive, resolveu a geometria política em duas frases: "Direita é alguém direito, correto. Esquerda é quem vive reclamando".
O que ressai desse tipo de declaração é muito claro. Ao menos deveria ser, mormente para quem diz agir com pretensão de promover justiça social com suas políticas. Ressai que, na periferia, o inimigo tem endereço. É a biqueira, a rua sem zeladoria, a escola onde falta professor. Os inimigos que a militância passa o dia denunciando moram noutro lugar. No vocabulário dela. No seu criativo imaginário (ou na Palestina, talvez).
Lembrei-me de Saramago. No Ensaio sobre a cegueira, uma cidade inteira é tomada por uma cegueira branca, um “mar de leite”, e o governo responde trancando os primeiros cegos num manicômio. Machado já havia ensinado, com a Casa Verde de Itaguaí, que o hospício é a solução preferida de quem não entende a cidade. O que me interessa, porém, é a epígrafe do romance do português: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."
A fundação olhou. Foi criada para isso. Para olhar, entender e melhorar as políticas do partido. Foi a campo, entrevistou, anotou. Viu e registrou. Está tudo no relatório, com uma honestidade rara. Viu, mas não reparou. Diante do que viu, armou triângulos.
No romance de Saramago, ninguém tem nome. Há o médico, a mulher do médico, a “rapariga” dos óculos escuros, o velho da venda preta. No relatório, por dever de método, também não.
A frase mais lúcida do documento é de uma avó catalogada como gênero feminino, 41 anos, negra, faixa de renda 2. Ela explicou por que prefere a escola particular com a precisão que falta a muito manual de teoria do Estado. Disse ela que, pagando, você pode exigir, mas "em escola pública você vai exigir de quem?". O Estado cobra dela. Ela não sabe de quem cobrar.
A cegueira de Saramago é branca. Esta outra é vermelha, da cor do triângulo. E essa cegueira vem seguindo há muitos anos o mesmo método. Quando o povo não pensa o que a teoria deles previu, o defeito nunca está na teoria. A resposta tem vocabulário fabricado, e a palavra-mestra é, a rigor, psiquiátrica: alienado. Depois vêm falsa consciência, pobre de direita, gado. Atualmente, pobre de direita, CEO de MEI, misógino, fascista, guitarrista, enxadrista (aliás, será que já chamaram o liberal e anticomunista disso lá na Rússia?). Enfim, uma plêiade de “-ista”.
Por falar em comunista, o Manifesto de 1848 abre seu primeiro capítulo garantindo que a história de toda sociedade até então é a história de lutas de classes. Mais de um século e meio depois, a fundação do partido foi conferir na periferia se isso tinha alguma procedência. A luta de classes, regularmente citada, não compareceu. Foi revel.
O curioso é que o próprio relatório, honesto na escuta, escorrega na hora de interpretar. Se o entrevistado se solidariza com o empresário, é porque assume "o discurso propagado pela elite". Se discute política, segue a agenda da "mídia hegemônica". Se consome, é porque "o capitalismo tenta desprover o cidadão" dos elementos da própria identidade. Já as "avaliações independentes", lá está escrito, tendem a vir de quem foi bem atendido pelos centros educacionais da prefeitura petista.
Até tento não citá-lo em todos os meus textos, mas lá vou eu com a minha própria ladainha de novo. Pois é, Nietzsche descreveu, na Genealogia da moral, a criação própria do homem do ressentimento. Primeiro, ele concebe o inimigo mau, como conceito básico. Só depois, por contraste, inventa um bom, que é ele mesmo.
Quando a periferia não fornece o vilão, a cegueira vermelha importa um e o desfecho do relatório é praticamente uma confissão nessa direção. O campo democrático-popular, concluem os pesquisadores, "precisa produzir narrativas contra-hegemônicas mais consistentes e menos maniqueístas ou pejorativas" sobre indivíduo, família, religião e segurança. Triângulo vermelho meu aqui! Alerta! A autocrítica coube inteira em duas palavras: menos maniqueístas.
A receita dada pelo PT, porém, buscou desmentir o próprio diagnóstico e não o tratar. Constatou-se que as categorias da militância não fazem sentido para o povo. Fez-se o quê? Receitou-se mais uma categoria da militância. Troca-se a narrativa, conserva-se a cegueira.
Por deformação de ofício de criminalista, parei a leitura numa linha sobre a polícia. Em bairros violentos, segundo o relatório, andar com a bíblia embaixo do braço assegura crédito de confiança perante a comunidade e o poder público, leia-se a polícia. O processo penal tem nome para o papel que protege alguém da coação ilegal antes que ela aconteça, trata-se do salvo-conduto, assinado pelo juiz que concede o habeas corpus preventivo. Na periferia, onde o Estado não está (como deixaram claro os próprios entrevistados), quem assina esse salvo-conduto é a igreja.
Onde o Estado costuma chegar só de viatura, a igreja chega de visita. Uma mãe contou ficar "mais tranquila, porque a pastora me ajuda a vigiar o facebook da minha filha". Tampouco o fiel é o rebanho do imaginário petista. Uma entrevistada recusa o dízimo para não "comer ovo o mês inteiro"; outra votou em pastores porque acha "que eles não roubariam". O voto religioso, diz o estudo, segue mais a proximidade do dia a dia que a ideologia conservadora em si.
Em outubro de 2018, às vésperas do segundo turno, Mano Brown subiu ao palanque de Fernando Haddad no Rio e estragou a festa. Confesso que nutro sentimentos ambíguos por sua figura, mas não terei eu minha própria cegueira para ignorar o seu acerto aqui. Naquele dia, ele avisou que, sem falar "a língua do povo", o partido ia perder, e sentenciou: "Deixou de entender o povão, já era". Se não sabia o que o povo queria, que voltasse à base. No dia seguinte, Haddad lhe deu toda a razão e prometeu voltar à periferia. O endereço estava no arquivo da própria fundação havia um ano e meio! Hoje ela mantém um projeto chamado Reconexão Periferias. Só se reconecta o que se desligou. E, pelo visto, essa (re)conexão não é banda larga.
Ainda sobre os evangélicos, o relatório, aliás, grafa reiteradamente "neopetencostais", desde a hipótese inicial. Erro de digitação, decerto. Não sou religioso, mas sou católico crismado e sei que a palavra que tropeçou vem de Pentecostes, o dia em que, segundo os Atos dos Apóstolos, homens vindos de todas as nações ouviram os apóstolos, e cada um os ouvia falar na própria língua. As igrejas que crescem na periferia carregam no nome o milagre de falar a língua de quem escuta. A direita tem lá os seus fantasmas, e merecem crônica própria; quiçá a terão. Este relatório, porém, não saiu de lá. É da casa petista.
Perto do fim do romance de Saramago, uma personagem arrisca o diagnóstico da epidemia: "Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem." O PT foi à periferia de olhos abertos. Olhou, viu, anotou. Faltou, até agora, o terceiro verbo da epígrafe, que em português tem dois sentidos. Reparar. Reparar é notar, e é também consertar. O partido não reparou, em nenhum dos dois.
P. S. A quem desejar ver os citados slides, segue o link: https://fpabramo.org.br/wp-content/uploads/2017/05/5-Pesquisa-Periferia-FPA-040420172.pdf










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